
Edgard Santos Barboza "provoca-me" à reflexão, insistindo na noção de puro x impuro na religião do AT. Leitor que é, apresenta-me a velha tese de Mary Douglas. Eu lhe digo o seguinte:
1) tenho muitas reservas com máximas da Antropologia que se possam aplicar indistintamente aqui e ali - e a noção de puro x impuro em Judá, eis aí uma noção da Antropologia que teimo em não acatar sem mais nem menos. Sim, sou teimoso, e quem não for não devia meter-se em pesquisas. A cada cinco minutos repetirá um teórico diferente...
2) não pesquisei o tema como devia - ainda. Darei um palpite. As religiões africanas, por exemplo, porque politeístas, conhecem o tabu de animais: os filhos de determinados orixás não podem comer determinados alimentos. Isso nada tem a ver com impureza, tem a ver com o tabu do orixá. Como são vários orixás, mas nem todo mundo é filho dos mesmos, tudo se pode comer, mas alguém sempre está proibido de comer determinada coisa.
3) Israel e Judá eram politeístas. Não duvido que não tivessem seus tabus alimentares, cada um relacionado a um deus diferente.
4) quando passaram - forçadamente - para a monolatria, penso que os diversos tabus, originalmente relacionados a diversos deuses, reuniram-se em um único pacote e foram, todos, aplicados a Yahweh (artificialmente, claro).
5) os sacerdotes, responsáveis pelo programa, aplicaram ao conjunto a noção artificial de puro e impuro. Vejam que a distinção sequer aparece na narrativa "sacerdotal" do dilúvio (a que usa o termo Deus), mas aparece na mais recente, do século V (a que usa Yahweh).
Assim, aposto todas as minhas fichas em uma hipótese: a noção de puro x impuro, em Judá, é artificial, e deriva de tabus culturais, como os africanos, em contexto politeísta, quando, então, nada tinham a ver com puro e impuro, exatamente como a questão menstrual que, no contexto pré-exílico, nada tinha a ver com puro e impuro, mas com sagrado e divino, daí, perigoso, exatamente como, de novo, nos ambientes indígenas e africanos.
OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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