sábado, 10 de março de 2012

(2012/264) Ronda Noturna, de Olavo Bilac

1. Eu adoro Olavo Bilac. Não é tanto o como ele diz, é o conjunto do que se diz com o como se diz isso que se diz - mestre desse café com leite, que invejo com dores nas juntas. A Ronda noturna é isso: imagem pura. Mas é a imagem sem figuras, é a imagem que tem de ser imaginada. Que é uma ronda noturna? Nada, coisa nenhuma, que jamais entraria no relatório dos fatos da vida. E, todavia, pode-se imaginar essa ronda, seus passos, ver as figuras, tudo na cabeça da gente, dentro da nossa retina.

2. Olavo. Meu mago de dizer o que se diz. Bruxo.

A Ronda Noturna
Olavo Bilac

Noite cerrada, tormentosa, escura,
Lá fora. Dorme em trevas o convento.
Queda imoto o arvoredo. Não fulgura
Uma estrela no torvo firmamento.

Dentro é tudo mudez. Flébil murmura,
De espaço a espaço, entanto, a voz do vento:
E há um rasgar de sudários pela altura,
Passo de espectros pelo pavimento...

Mas, de súbito, os gonzos das pesadas
Portas rangem... Ecoa surdamente
Leve rumor de vozes abafadas.

E, ao clarão de uma lâmpada tremente,
Do claustro sob as tácitas arcadas
Passa a ronda noturna, lentamente...

(Poesias, 1888 [Série Panóplias])









OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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