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segunda-feira, 31 de maio de 2010

(2010/399) O que afinal é ser protestante?


1. Pode-se tentar contornar a questão, servindo-se de outra: o que é ser evangélico? Todavia, também essa é uma questão cada vez mais difícil de ser respondida. Além disso, trata-se, nesse caso, de uma questão viciada - ao menos no que diz respeito ao meu grau de exigência. A identidade evangélica é uma identidade relacionada a um conteúdo, e isso exige, impõe, sem negociações, a adesão a esse conteúdo. No entanto, também o conteúdo dessa identidade, pelo menos no Brasil, está sendo alterado - como negá-lo, por exemplo, no que diz respeito ao front neopentecostal? Nem mesmo culpa há na plataforma teológica ali manejada, mas vitimização: o homem como presa do diabo (eventualmente, como era nos Evangelhos, o que se caracteriza como uma curiosa ironia...) -, o que tem reverberações em toda superfície acústica da plataforma evangélica

2. A identidade protestante apontará, também, para um conteúdo? Ser protestante é, como fez Lutero, abraçar uma cristologia soteriológica de caráter alegórico-normativo? Ser protestante é ser evangélico, mas em estilo europeu? Não se consegue me vender a história de uma Reforma que se distingue do Catolicismo por conta de sua fundamentação bíblica. Isso nunca houve. O que houve foi a substituição da base retórico-política da sustentação do dogma, que antes incidia sobre o clero, para a Escritura - mas, atenção: o dogma! Nunca se abriu mão do dogma, da doutrina, da fé (no mesmo sentido em que a palavra fé é empregada em Judas) [aí está o segredo da Teologia como Metáfora - ela sabe qual é a jóia da coroa, ela sabe em que não se pode tocar]. "Livre-exame", na Reforma, era um modo de dizer "livre de Roma", ou seja, "do jeito luterano". Não tinha nada a ver - e, na prática, não tem - com "exegese crítica".

3. Certo é que a Reforma pôs a Bíblia na mão do povo. Ainda que tenha sido essa também uma ação política, que ainda funciona muito bem nas milhões de comunidades-irmãs daquela primeira - uma Escritura a legitimar uma Doutrina -, ñunca houve intenção verdadeira no sentido de problematizar a fé e perscrutar o "real" (histórico - riem-se de mim os não-fundacionais de todo tipo e justificativa...) sentido das passagens bíblicas - as Declarações de Fé das inúmeras denominações cristãs não nos deixam mentir. Ser protestant era ser um tipo diferente de católico. E ainda o é.

4. Mas o que me persegue é o que eu quero dizer quando eu mesmo digo que sou protestante. Do que estou falando? Sou-o, porque aceito as doutrinas protestantes? Mas quais? Uma cristologia nicênica? No fundo, Lutero não tem uma relação fundamental com as Escrituras. Tem com o Cristo da "floresta" - o de Nicéia, que também pomos na estrada para Damasco... Mas, quando invoco a palavra, invoco-a no sentido da liberdade em face de tudo e de todos, na direção da prerrogativa da consciência e, levando-se em conta que o digo 500 anos depois de ela ter sido proferida, em contexto, agora, pós-dogmático, pós-metafísico, exegético, crítico, emancipado. Direi: a palavra "protestante", quando a pronuncio, não tem mais a identidade disfarçada do catolicismo normativo - transformou-se em iconoclastia inexorável.

5. Ou seja: ser protestante é um modo diferente de ser católico - uma adesão a conteúdo e prática normativos? Ou ser protestante é um modo radicalmente novo - e cada vez mais novo - de lidar com as Escrituras, com a "fé", com a vida? Ser protestante tem a ver com processo de consciência? Ou tem a ver com manutenção da tradição? O que é ser, afinal, protestante? Quem sou eu, afinal? Quem é esse que me olha, agora, desde o coração da angústia?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 14 de março de 2010

(2010/222) Inseparáveis


1. Quando a Reforma fez de todos os dias dias do Senhor. Quando a Reforma fez de todos os crentes sacerdotes. Quando a Reforma fez de todos os lugares lugares santos. Quando a Reforma pôs Deus em tudo e em todos. Nesse dia, a Reforma dissolveu o dístico inseparável - sagrado e profano. Foi Lutero, por assim dizer, quem forjou a secularização, a modernidade, a emancipação, porque a Reforma produziu, alquimicamente, a crítica, a autonomia, a liberdade, e, contudo, não soube, jamais, como pais a quem falta o trato, cuidar das crias. Paridas, foram expulsas de casa, como meninas prenhas de igreja. Não se pode, Lutero, não se pode, não, separar o sagrado e o profano, porque um é o outro lado do outro, como uma moeda, para o que é impensável um lado só. A Reforma julgou ser possível criar uma moeda de um só lado - Deus onipresente... Todavia, com isso só logrou expulsá-lo do mundo, torná-lo inútil, inutilizá-lo. Não é por outra razão que se odeia tanto a Nietzsche nos arraiais "luteranos" - porque ele o denunciou. Não, não foi Nietzsche o assassino - foi Lutero. Nietzsche foi apenas testemunha de acusação. Doravante, sabia-o a testemunha, o cadáver insepulto da Inutilidade protestante ver-se-ia carregado às costas deicidas... Até quando?

2. My Immortal, em versão profana, em versão sagrada...


I'm so tired of being here Suppressed by all my childish fears And if you have to leave, I wish that you would just leave 'Cause your presence still lingers here and it won't leave me alone These wounds won't seem to heal This pain is just too real There's just too much that time cannot erase When you cried I'd wipe away all of your tears When you'd scream I'd fight away all of your fears And I held your hand through all of these yearsBut you still have all of me You used to captivate me by your resonating light Now I'm bound by the life you've left behind Your face it haunts my once pleasant dreams Your voice it chased away all the sanity in me These wounds won't seem to heal This pain is just too real There's just too much that time cannot erase When you cried I'd wipe away all of your tears When you'd scream I'd fight away all of your fears And I held your hand through all of these years But you still have all of me I've tried so hard to tell myself that you're gone But though you're still with meI've been alone all along When you cried I'd wipe away all of your tears When you'd scream I'd fight away all of your fears And I held your hand through all of these years But you still have all of me.

3. Mas qual é a sagrada?, qual é a profana? Quem? Quem, ó Deus? Quem, ó Não-Deus? Quem pode apontar para vós? Só os vossos assassinos... E por isso, ó Inseparáveis, por isso arranco todos os meus indicadores - que não vos apontem! -, meus olhos - que não vos vejam! - meus ouvidos - que não vos ouçam! - para viver nu e no risco, humílimo pó de estrelas... Caminho só, no limite da inseparável cicatriz que vos amarra, afogado no inseparável mar de vossos corpos...


Immortal Bridge - Monte Tai (China)




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 24 de abril de 2009

(2009/215) Religião e ciência


1. Há milhares de anos, quem sabe?, milhões, nasceu a religião. Já o disse que, na minha opinião, ela nasce como estética. Ato contínuo, assume aquela forma de expressão que, muito tempo depois, há de se tornar a ciência. Lá e então, ela, essa expressão, é, apenas, um impulso explicativo, próprio da religião, da teologia e, agora, próprio das ciências. Mais cedo ou mais tarde, de estética (e explicativa), a religião torna-se política.

2. Provavelmente ela tornou-se política, isto é, passou a ser controlada por interesses políticos, assim que as comunidadees humanas tornaram mais sofisticados os seus relacionamentos. Mas será com o surgimento das monarquias, das cidades, que a religião se transformará na parceira mais importante da política. O rei logo tornou-se ou representante, ou encarnação, ou imagem, ou filho dos deuses.

3. Com isso, a religião agora domina todos os espaços da cultura: a estética, o belo, as "explicações", a "verdade" - e a política, o dever. Não há, então, nenhum espaço da sociedade, da cidade e do campo, onde lá não esteja o olho e a mão da religião - e, com isso, o olho e mão dos poderes políticos, sejam os puramente sacerdotais, sejam, já, os da coroa.

4. Quanto tempo na longa estrada da História esse foi o quadro encenado, dia e noite? Séculos e séculos se perdem na noite dos tempos. Em que partes do planeta isso se sucedeu? Em todas. Não há expressão religiosa humana, no planeta, que não tenha caído nessa mesma situação. Todos os povos o fizeram. Uns mais, quanto mais organizada e urbana ela fosse, uns menos, mas mesmo as culturas menos sofisticadas, mais "tribais", mais silvícolas, experimentaram a hiperonomia da religião, isto é, a submissão de todas as esferas da vida à esfera religiosa.

5. Até que, no Ocidente, inicia-se um processo de descoalização. Não foi determinante o que aconteceu na Grécia, por volta do século V e IV. Platão está a serviço do mesmo princípio - só há, parece, um certo movimento para o esconder. Aristóteles, talvez, tenha desenvolvido reflexôes mais autonomizantes, quero crer. Seja como for, essa Grécia é o equivalente, para a Reforma, a John Huss - não deu em nada de concreto enquanto acontecia, ainda que seus desdobramentos serão percebidos séculos depois - mas somente séculos e séculos depois.

6. Aristóteles simplesmente "desaparece" no Oriente. No Ocidente, a própria cultura helênica será o estofo para uma civilização teológica inteira - o Ocidente Cristão. Platão é seu parteiro. Paulo, seu pai. E lá se vão mais mil anos, desde aí até aqueles dias em que os árabes introduzirão Aristóteles na Península Ibérica. Mil anos de "morte", dirão os próprios europeus, quando se chamarem, depois deles, de renascentistas. Grécia falhara. Tentemos de novo.

7. É somente aí que um processo realmente transformador se inicia. Desdobrar-se-á, desde a Renascença e o Humanismo, primeiro, na Reforma, depois, no Empirismo, depois, no Iluminismo, na Revolução Francesa, no Romantismo e, voilá, re-inventa-se não uma civilização, mas uma nova forma de configuração da própria condição histórica humana.

8. Depois de uma longa série de fluxos e refluxos relacionados aos processos de emancipação política (Iluminismo e Revolução Francesa) e heurística (Iluminismo, Empirismo e Romantismo), a condição hiperônima da religião perdeu substância. De sob o poder da religião, tirou-se quer a política, quer a heurística. Tornada assunto privado, logo, estético, restou a ela a manutenção esquizofrênica de fingir para si mesma que as coisas continuavam como antes.

9. Na sociedade, inicia-se uma nova forma de existência humana. Para a política, a democracia, as rotinas, sempre ainda muito imperfeitas, de representatividade política, a criação do Estado dividido em três poderes - Legislativo, Executivo e Judiciário, o estabelecimento dos Direitos Humanos.

10. Ao mesmo tempo, aquele princípio "explicativo", embrionário e mítico, converte-se num impulso programático e metodologicamente discutido de investigação - a heurística (que Aristóteles já pressupusera na forma do "saber", ao lado do querer e do sentir). Surgem as ciências, primeiro as matemáticas, depois, as empíricas, então, as humanas.

11. Estabelecem-se as câmaras pragmáticas, política, estética e heurística. A sociedade se emancipa, se organiza. O que antes constituía a câmara hiperônima de tudo o que se fazia e dizia na cultura, converte-se, agora, em uma das rotinas privadas que a constitui - a religião.

12. Mas a religião não aceita esse jogo, não. A religião quer, para si, aquela velha vida de senhora, rainha e mãe. Intra-muros, age como se nada tivesse acontecido. Intra-muros, é tão política quanto antes - todo "sacerdote" é rei e chefe. A "verdade" é o que ela diz, e pronto. O gozo, ela dita as regras litúrgicas para a sua expressão. Ela, a religião, padece de uma doença - esquizofrenia e extemporaneidade.

13. Na relação com a sociedade, a religião não aprendeu - aprenderá? - a lidar com o que considera uma usurpação de seus poderes. No campo político, mesmo os batistas, tão intimamente relacionados à sepração entre Igreja e Estado, no fundo, consideram que é Deus, logo, seu patrono, o verdadeiro gestor do planeta, seja dentro da Igreja, seja fora dela, de modo que, sendo ela a mais entendida das coisas de Deus, também a política, para ela, é uma coisa religiosa, a democracia, um instrumento de Deus, e os resultados da política, condenáveis, se ferem seus "princípios" divinos, para o que basta nos lembrarmos das questões relacionadas às células-tronco, aos direiros civis de homossexuais e às questões relacionadas ao aborto. Se a religião pudesse, assinava ela mesma as leis que ela entende divinas. Não aprendeu nada até hoje, a velha professora.

14. No campo das ciências, a esquizofreinia chega às raias do intolerável. Os mitos milenares são sacados para o enfrentamento das pesquisas. A EBD entra em batalha contra o laboratório. As crianças, coitadas, não sabem se respondem do jeito que a professora quer, ou do jeito que o pastor quer. Na prática, responde, pra um, de um jeito, pra outro, de outro, aprendendo desde cedo a sutil arte de ser adaptável. Quando não, pais enfiam goela abaixo de seus filhos os mitos que eles, os pais, decidiram ser verdadeiros.

15. No campo da estética, separa-se o belo em sagrado e profano. Veja-se o caso da música, por exemplo. Uma vez que o belo é apenas o que está no âmbito do sagrado, quando o âmbito do sagrado sofre de patologias incuráveis no campo da beleza - pelo amor de Deus, como se canta mal! -, o belo se torna irremediavelmente feio. Pior do que a mais expressiva parcela da música gospel nacional, só a mais expressiva parcela do funk nacional.

16. E tudo porque a religião não é capaz de admitir que o seu tempo de rainha acabou. Resta a ela aquela dimensão original, estética, de, eventualmente, dar sentido à existência efêmera humana. Não é necessário que a religião simplesmente se considere um fóssil, que não é, mas igualmente não é aquilo que imaginara por toda uma História das Civilizações. No sistema ocidental, cabe a ela apenas uma participação significativa na dimensão estética pessoal, mas não mais nem na política (tecnicamente falando), nem na heurística.

17. Tomara a religião ponha a mão na consciência e se converta. Poderia trocar seu papel de alienadora das consciências para um papel de expressividade estética, de agente patológico, em terapêutico. Porque até o que ela chama cura, hoje, constitui, a rigor, uma disfunção psicológica. Todavia, não é algo que um religioso possa fazer sozinho...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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