Tomando por base a teologia que se pratica na academia, é tão descomunal o descompasso entre os conteúdos estudados nas Instituições de Ensino Superior e os conteúdos circulantes nas comunidades de fé que é absolutamente lícito perguntar-se, afinal, para que cursar teologia.
Nas instituições confessionalmente controladas, o “ensino” dá-se sob regime de total submissão ao dogma denominacional – cada denominação tem sua própria doutrina, seus próprios dogmas e suas próprias ferramentas de inculcação dessas crenças e normas. Nesses espaços, o estudante não vai além de um receptor passivo da Tradição.
Nas instituições mais deslocadas do controle eclesiástico, as teologias são, conforme o caso, mais ou menos alinhadas com tradições doutrinárias. As mais confessionais procuram até ser críticas em relação à tradição, mas o percurso que percorrem é o de aprofundamento dessa tradição a que estão vinculadas. Crítica, aí, ou é a crítica da sociedade, à luz de programas ético-teológicos tradicionais criticamente aprofundados, ou é a crítica da própria tradição, no sentido de retornar a uma fidelidade ancestral criticamente pressuposta.
Ou seja, ou se faz teologia para repetir dogmas tradicionais e lhes dar uma aparência de cientificidade, ou aprofundar criticamente a tradição, na busca do retorno aos fundamentos de ouro da fé ancestral e fundante ou, finalmente, a crítica da sociedade a partir de um olhar supostamente capaz de, desde sua posição, estabelecer caminhos e direções.
Compreendo cada um desses modelos, mas não tenho (mais) relação subjetiva com eles. Para mim, o estudo da “teologia” tem outros sentidos, outros objetivos.
Primeiro, a compreensão histórica da tradição, a compreensão do passado fora das narrativas ideológicas que se engendraram no percurso histórico das religiões: cada uma delas produz suas elegias e louvações, suas narrativas autorizadas. Frequentemente, são falsas.
Segundo, a compreensão da religião de modo geral e em todos os sentidos como fenômeno humano. Sem negociações falso-epistemológicas. Fenômeno humano quer dizer exatamente isso e apenas isso – fenômeno humano. Para mim, o estudo da teologia deve se dar a partir das câmaras internas das ciências que se debruçam sobre o fenômeno humano e, nesse caso, religioso: as ciências das religiões e suas componentes disciplinares.
Terceiro, a reconstrução interna do teólogo de seus programas de compreensão de si mesmo, do mundo e da vida, o que implica, necessariamente, em dar um passo para fora da tradição e da crença, tomando-as como elementos a serem reconfigurados consciente e programaticamente.
Os desafios desse terceiro objetivo da teologia, sempre conforme meu parecer pessoal são consideráveis.
Primeiro, o teólogo assume-se radicalmente como sujeito epistemologicamente autônomo. Por si só, esse desafio já o retira de sob a administração religiosa – é ele, agora, quem, programaticamente, se põe sobre a religião, não mais se deixando estar sob ela. A autonomia é, para todos os fins, um obstáculo de difícil contorno para a expressão religiosa clássica – quanto mais as de recorte monoteísta.
Segundo, sem discriminações e exceções, o teólogo assume os conteúdos das religiões como mitos de cultura – extraindo daí todas as consequências bastante óbvias. Em harmonia radical com o preceito anterior, a autonomia em face da religião, o fato de o teólogo assumir como mito o conteúdo da fé parece ser a expressão mais ampla possível daquela máxima neotestamentária a que tanto me refiro: o homem não foi feito para o sábado, mas o sábado foi feito para o homem. Se o teólogo não pode assumir como mito toda e qualquer doutrina de toda e qualquer religião, põe-se em estado de subordinação epistemológica em relação a essa religião. Na prática, compreende-se como tendo sido feito para ela...
Terceiro, finalmente, reconstruir as suas relações com a própria teologia, com a história, com a comunidade de fé, com as comunidades religiosas de modo geral. Não há conhecimento verdadeiro, se ele permanece na superfície da pele – o que se traduz em descompasso entre o aprendido e a vida real. Aprender é radicalmente levar isso que se aprende a sério. Aprender é levar isso que se aprende à sua materialização na vida.
Por tudo isso, penso que a teologia seja – se não o mais – um dos cursos de maior desafio subjetivo: mas isso apenas se ele se faz sob o recorte de cortar a própria carne, de rasgar a própria alma.
Também por isso tudo, penso que cada um e cada uma de vocês fez um curso diferente. Uns, estavam interessados em recuperar a pedra filosofal da fé. Talvez tenham saído com alguma pedra na mão, e talvez a embalem por muitos anos, convencidos de sua obra alquímica... Outros, fizeram um curso que lhes parece ter dado um mirante a partir do qual podem, agora, denunciar as injustiças da sociedade, da vida, dos homens e das mulheres. Faz-se um profeta com diploma, agora... Outros, simplesmente aprofundaram sua fé até profundidades nunca imaginadas, conquanto eu poderia considerar que, nesse caso, profundidade é uma palavra sem sentido. E, quem sabe, tenha havido aqueles que fizeram o curso mais difícil – é como os arbustos espinhosos da caatinga, verdadeiros labirintos de espinhos, que cobram pele, carne e sangue pela sua travessia.
Eu não sei quem dentre vocês fez qual curso, mas gostaria de lhes revelar um segredo: no meu coração, dei aula sempre para os últimos...
Vitória, 12 de dezembro de 2013
OSVALDO LUIZ RIBEIRO
Não me formei em teologia, mas sou um estudante, aprendiz de vários filósofos que imperam em sua realidade suas verdades e experiencias. Discordo nesssa frase colocada abaixo pelo professor ,não como afronta mas crendo que posso através de um dialogo aprender mais sobre a profundidade de alguns jogos de linguaguem.
ResponderExcluir" Em harmonia radical com o preceito anterior, a autonomia em face da religião, o fato de o teólogo assumir como mito o conteúdo da fé parece ser a expressão mais ampla possível daquela máxima neotestamentária a que tanto me refiro: o homem não foi feito para o sábado, mas o sábado foi feito para o homem."
Aceitar a Fé como conteúdo do mito é corroborar para o enfraquecimento da teologia como ciência (Estudo), pois ela passaria por ser parte teórica de marcos apenas sociais ou da psique humana. Assim Mircea Eliade e Apostolo Paulo seriam,Estudados apenas na Antropologia e psicologia, entre outras... A história seria escrita sem encontrar na interpretação a sub linhas da experiencia não explicada pela lógica.
Acabaria esse recorte onde a fé é mais que um fenômeno histórico de um psique coletivo. Poderíamos deixar a racionalização ditar o que é ciências da religião ou a ciência da religião como alguns gostam de dizer. O mito fundante seria o afundante para o ainda inexplicável do ponto de vista Teológico e não apenas lógico. Essa simples argumentação é para pedir uma ajuda sobre a concepção de Fé e mito. obrigado desde já pela resposta que será ministrada.